O caso das savanas tropicais da América do Sul: quando a sustentabilidade econômica e ecológica não é suficiente

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O caso das savanas tropicais da América do Sul ilustra as complexas interrelações entre as características ecológicas dos ecossistemas terrestres naturais e os seus usos. As savanas tropicais estão determinadas por um conjunto de limitações ambientais, i.e., marcada sazonalidade das precipitações, períodos de excesso e déficit hídrico no solo, altas temperaturas e altas taxas de evapotranspiração potencial, conduzindo ao desenvolvimento de solos pobres em nutrientes e a queimadas recorrentes. Porém, as savanas tropicais são ecossistemas muito ricos em espécies, o que leva a considerar esta diversidade entre as mais importantes do mundo. Além da riqueza em espécies, a sua diversidade funcional é também elevada, devido a que as savanas se caracterizam por um expressivo mosaico de diferentes ecossistemas quando consideradas na escala espacial da paisagem. O funcionamento das savanas influencia claramente as alternativas de uso da terra nas regiões que estas ocupam. Nas maiores regiões de savana tropical da América do Sul, os Llanos Colombo-Venezolanos, o Cerrado Brasileiro e os Llanos de Beni na Bolívia, um sistema produtivo baseado na criação extensiva de gado chegou a ser dominante desde 1700 até 1950. Os sistemas de fazendas, i.e. hatos na América hispana, foram ecologicamente sustentáveis porque exploraram enormes extensões de savana com cargas animais muito baixas; no entanto, foram também economicamente bem-sucedidos porque, uma vez assegurada a propriedade da terra, o investimento e o custo em mão-de- obra foram desprezíveis. Porém, desde meados do século 20, o processo de “modernização” expandiu as economias regionais através da gradual substituição das savanas por pastagens manejadas e, posteriormente, por cultivos comerciais. A importância destes últimos é exemplificada pela espetacular expansão da soja sobre o Cerrado, processo alimentado pelo aumento incessante da demanda do grão no mercado interna-cional. No início do século 21, uma proporção importante dos ecossistemas originais já fora transformada em pastagens e cultivos. A modernização também tem produzido uma crescente quantidade de commodities, mas se a tendência atual se mantém, no futuro próximo só poderemos ver savanas naturais nas poucas áreas legalmente protegidas, o que levará a uma perda notável e irreversível da biodiversidade do planeta assim como dos serviços ambientais que estes ecossistemas fornecem à sociedade. Concluímos, ainda, que a sustentabilidade deve ser ecologicamente robusta e economicamente rentável, porém, para ser atingida, certos paradigmas sociopolíticos, tais como o peso do mercado no delineamento da política de conservação e os objetivos do desenvolvimento, precisam ser considerados. Pensar de maneira reducionista a sustentabilidade, como sendo o produto bidimensional de ecologia e economia, sem considerar a complexa trama de idéias por trás da apropriação social dos recursos e do espaço é altamente perigoso para a conservação do que resta dos ecossistemas naturais.

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Publicado en: I. Garay (Ed): As dimensôes Humanas da Biodiversidade. O Desafio de novas relações sociedade - natureza no sêculo XXI. Editorial Vozes, Petropolis.

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